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“Dinheiro em mala”: Operador que repassava valores para o filme de Bolsonaro vai delatar

Jucélio Almeida setembro 3, 2026 5 minutes read
Gin e Bolso

A Procuradoria-Geral da República (PGR) fechou um acordo de colaboração premiada com o operador do mercado financeiro Antonio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro, dono da Entre Investimentos e Participações, empresa utilizada para repasses de dinheiro entre o banqueiro Daniel Vorcaro e a produção de “Dark Horse”, o polêmico filme sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro.

A delação de Freixo é a segunda no caso Master. Nos últimos dias também foi encaminhada ao ministro André Mendonça, relator do caso, a proposta de delação de João Carlos Mansur, dono da gestora Reag, que administrava os fundos usados por Vorcaro para esconder dinheiro.

O grupo Entre é controlador da revista IstoÉ e da Entrepay, que sofreu liquidação extrajudicial pelo Banco Central em março deste ano. Em janeiro deste ano, a Entre foi alvo de busca e apreensão no bojo das investigações do caso Master.

Segundo a equipe da coluna apurou com fontes a par do caso, em seu acordo Freixo Junior deu detalhes sobre os pagamentos que fez a pedido de Vorcaro por conta de “Dark Horse”. O filme se tornou o principal foco de desgaste da campanha do senador Flávio Bolsonaro à Presidência da República, após virem à tona mensagens em que o filho 01 de Jair Bolsonaro cobra dinheiro de Vorcaro supostamente para a produção do longa-metragem.

Dinheiro enviado ao exterior

Nos anexos entregues aos investigadores, o empresário detalhou remessas que fez ao exterior para o fundo Havengate, sediado no Texas, nos Estados Unidos, e administrado pelo advogado de imigração Paulo Calixto, próximo do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP).

O acordo de Freixo Júnior (que não está preso nem com tornozeleira eletrônica) já foi encaminhado para o gabinete de Mendonça, a quem caberá decidir se o homologa ou não. Não há prazo para Mendonça analisar o material e as cláusulas do acordo.

Para os investigadores, a delação de Freixo pode ajudar a obter os registros da movimentação do Havengate nos Estados Unidos e reforçar o argumento junto às autoridades norte-americanas de que é preciso uma cooperação bilateral para o aprofundamento das investigações. O objetivo é saber se o dinheiro dado por Vorcaro foi de fato usado para o filme ou desviado para custear as despesas de Eduardo Bolsonaro no exterior, como suspeitam a PF e a PGR.

Conforme revelou o repórter Breno Pires, da revista piauí, foram feitos ao menos sete pagamentos da Entre para o Havengate, inclusive em 16 de setembro de 2025, a apenas dois meses da prisão de Vorcaro por decisão da Justiça Federal de Brasília. O sétimo pagamento desmente a versão de Flávio Bolsonaro, que havia dito em entrevista à Globonews que os repasses haviam acabado em maio do ano passado.

Malas de dinheiro

Freixo Júnior também contou as diversas remessas que fez, inclusive em dinheiro vivo, em malas, a pedido de Vorcaro. Segundo fontes que acompanham de perto o caso, o empresário não citou autoridades com foro privilegiado e alegou que não sabia que os repasses para o Havengate seriam destinados à produção de “Dark Horse”.

O potencial delator ainda deu inclusive os endereços onde ocorreram essas entregas em dinheiro vivo, mas alega que não tinha ciência do que seria feito com as quantias depois.

Procurada, a defesa de Freixo Júnior informou que não se manifestaria porque a apuração é sigilosa.

Prestação de contas de produtora provoca estranhamento

Quando o caso veio à tona, após a publicação de uma série de reportagens pelo Intercept Brasil, Flávio prometeu apresentar uma prestação de contas dentro de um prazo de 30 dias, o que não ocorreu. O candidato do PL alega que a produtora do filme apresentou uma perícia privada e tenta considerar o assunto “página virada” – algo que está longe de ocorrer.

De fato, a Go Up Entertainment encomendou uma perícia privada, que constatou que 72% dos gastos com a produção ocorreram nos Estados Unidos, ainda que o filme tenha sido filmado no Brasil.

Mas o que causou maior estranhamento na tal da perícia foram os gastos nas etapas iniciais do projeto, especialmente na fase de pré-produção, considerados estratosféricos e provocaram espanto entre profissionais do setor ouvidos pelo blog.

Master pagou R$ 2,32 milhões à empresa de delator

Conforme revelou o blog, o Banco Master pagou diretamente à Entre Investimentos R$ 2,329 milhões de reais em 2025.A informação está nas declarações de Imposto de Renda do banco, que foram compartilhadas com a CPI do Crime Organizado.

Em maio, uma reportagem do The Intercept Brasil descreveu um acerto de R$ 134 milhões entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro para o financiamento da obra, usando a Entre Investimentos na intermediação.

A reportagem do Intercept reproduziu mensagens trocadas em janeiro de 2025 entre Vorcaro e seu cunhado, Fabiano Zettel, tido pelos investigadores como seu operador financeiro, na qual o CEO do Master reclama de atrasos no pagamento das parcelas para o filme de Bolsonaro. Zettel, então, relata entraves para concluir os repasses, que seriam feitos em dólar por meio de remessas internacionais.

O banqueiro, então, orienta o cunhado a realizar o pagamento por meio da Entre Investimentos. Dias depois, Zettel pergunta se poderia “pedir pro Minas” – referência ao apelido de Freixo Júnior, salvo no celular de Vorcaro como “Mineiro”.

De acordo com o site, Fabiano Zettel pouco tempo depois um comprovante do repasse de US$ 2 milhões para um fundo ligado à produção do filme pela Entre Investimentos.

Com O Globo

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil Reprodução

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