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O cachorro e o menino

Bem que poderíamos começar o título acima com o menino e o animal vindo logo após. É a ordem natural da vida na Terra. O ser humano primeiro. Mas, quando a questão retrata o racismo, em qualquer parte do planeta transformam o homem num bicho. Por conta da cor, ele vem sempre em segundo plano, quando vem. O título aqui não coaduna com essa triste realidade, mas tem como objetivo evidenciá-la.

Isso está escancarado na morte do pequeno Miguel Otávio no Recife. O que fez a criança despencar do nono andar? Ele seria desses meninos travessos? A porta estava aberta? Negligência da patroa? Tudo isso pode ser elevado em consideração. Porém, há um fator essencial que não pode ser jogado para debaixo do tapete. Ou que continue em baixo do tapete.

E se fosse o contrário? E se fosse a patroa branca e rica levando a criança negra e pobre da empregada para passear? Certamente, estariam todos bem, inclusive o cachorro que teria ficado sob os cuidados da empregada.

Está evidente. A culpa daquela tragédia, mais uma vez, está no abismo que segrega negros e brancos imposto pela nação brasileira. Foi o racismo quem forjou por antecipação a morte de Miguel. Mãe negra, pobre, não escolarizada trabalhando sobre ordens da patroa em troca de um salário minguado. E que para não deixar o filho menor só num barraco, fincado numa favela ao julgo de criminosos, não teve escolha foi para a senzala dos dias atuais.

E em tal situação outras tragédias raciais se sucedem ao conhecimento de muitos que se calam e fingem que não ver. A empregada negra não senta à mesa, não entra pela porta principal, não se apresenta aos convidados, não usa o mesmo banheiro, baixa a cabeça ao se dirigir ao patrão, é a primeira culpada pelo sumiço da joia e ainda é obrigada a passear com o cachorro. No caso do Recife, o que faz aumentar de forma desproporcional o racismo é a morte da criança. Mas, o resto já estava lá dentro daquele apartamento como legado da escravidão.

O racismo no Brasil não é velado. É claro como a pele de todo ariano. O que o deixa encoberto é a ignorância de uns e a falta de consciência de outros. Para enxergá-lo foi preciso a morte de uma criança no momento inoportuno (ou oportuno) do assassinato de um negro americano a milhares de quilômetros daqui. Depois, todos se calam, até outra empregada negra ir passear com o cachorro, até a morte de outro Miguel, negro, pobre…

One thought on “O cachorro e o menino

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    Valdeci
    12 de junho de 2020 at 16:14

    Comentário digno de aplausos e reconhecimento de um grande jornalista! Parabéns.

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